Julho das Pretas em Poços de Caldas celebra Tereza de Benguela

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Dando sequência às ações da mobilização nacional Julho das Pretas, que reúne organizações, coletivos e movimentos de mulheres negras de todo o Brasil em uma agenda de incidência política e fortalecimento da participação social, a Divisão de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e Étnica, vinculada à Secretaria Municipal de Assistência Social, e a Rede da Igualdade Racial de Poços de Caldas publicam nesta semana o texto “Dia de Tereza de Benguela”, escrito pela doutora em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, professora da Rede Municipal de Ensino e membro da Rede da Igualdade Racial de Poços de Caldas, Mariana Carvalho.

Criada em 2013 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, a campanha celebra o 25 de Julho – Dia Internacional da Mulher Negra Afro-Latino-Americana e Caribenha, data que reforça a importância da valorização da trajetória, das contribuições e da luta das mulheres negras por direitos, justiça social e equidade. Anualmente, o Julho das Pretas promove debates e ações voltadas à superação das desigualdades de gênero e raça, dando visibilidade às pautas e reivindicações das mulheres negras em diferentes espaços da sociedade.

Em 2026, o tema da mobilização é “Seguimos em Marcha por Reparação e Bem Viver”, reafirmando o compromisso com a continuidade da luta coletiva após a Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, realizada em Brasília, em novembro de 2025, que reuniu mais de 300 mil mulheres de 40 países. A proposta destaca que a mobilização permanece ativa nos territórios, fortalecendo ações permanentes de enfrentamento ao racismo, às desigualdades estruturais e à construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

Dia de Tereza de Benguela

*Por Mariana Carvalho, Doutora em Literatura Comparada, com ênfase em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (UFF). Mestre em Estudos da Linguagem / Linguagem e Memória Cultural (UFOP). Licenciada em Língua Portuguesa e Bacharel em Estudos da Literatura (UFOP). Professora da rede pública municipal de Poços de Caldas.

Quão importante deve ser uma pessoa para que tenha uma data em sua homenagem em nosso calendário? Que feitos heroicos precisariam ser realizados para que seu nome fosse eternizado através de uma data comemorativa? Talvez muitos questionem o porquê de termos, desde 1992, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e, desde 2014, o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Provavelmente muitos desconhecem a história de Tereza de Benguela e tal desconhecimento não é sem motivo, pois a História, muitas vezes, relega para um segundo plano aqueles que não “se enquadram” nos padrões hegemônicos dos que poderiam (ou deveriam) ser retomados pela narrativa histórica.

Pouco se sabe sobre a origem de Tereza de Benguela, porém, através do próprio sobrenome, podemos inferir que possua relações com uma colônia portuguesa situada em Angola. Tendo sido líder do Quilombo de Quariterê, alguns estudiosos afirmam que assumiu a liderança desde a fundação do mocambo, outros postulam que tornou-se líder após a morte de José de Benguela (José Piolho), seu marido. Tereza de Benguela era chamada de “Rainha Tereza” e comandava o agrupamento, também denominado de Quilombo do Piolho, com uma estrutura semelhante a de um parlamento.

Tereza de Benguela era conhecida por governar com firmeza, prezando pela disciplina e pela segurança de todos que habitavam no quilombo, localizado na região que atualmente corresponde à cidade de Cuiabá. Ao ser capturada, em 1770, juntamente com outros quilombolas, Tereza foi levada à Vila Bela de Santíssima Trindade, primeira capital de Mato Groso, sendo humilhada e hostilizada. Após duas investidas, o quilombo todo foi destruído, em 1795, e os fatos sobre o que aconteceu com Tereza, após sua captura, são imprecisos e oscilam entre a decapitação e exposição em praça pública, o autoextermínio e o adoecimento.

A relevância de Tereza de Benguela reside no fato de ter comandado um quilombo que, sob sua liderança, prosperou e ofereceu refúgio e dignidade à população escravizada e desumanizada, tanto negra quanto indígena. Seu exemplo nos mostra que já no século XVIII mulheres ocupavam cargos de liderança, sendo sua atuação ainda mais emblemática, por se tratar de uma mulher preta e escravizada. Todavia, 256 anos após a captura e morte de Tereza, presenciamos situações em que a discriminação e o preconceito limitam a atuação de mulheres potentes, atravessadas não apenas pelo fator do gênero, mas também pelo elemento étnico-racial.

Em uma carta-denúncia, datada de 08 de fevereiro de 1984, o coletivo de mulheres negras – Nzinga, que teve como uma de suas fundadoras a intelectual Lélia Gonzalez, afirmou que “[…] numa sociedade onde o racismo e o sexismo, enquanto fortes sustentáculos da ideologia de dominação, fazem dos negros e das mulheres cidadãos de segunda classe, não é difícil visualizar a terrível carga de discriminação a que está sujeita a mulher” (GONZALEZ, 2020, p. 109), o que justifica termos, com a instituição do dia 25 de julho, não um marco para celebrarmos ou comemorarmos pelo que já conquistamos, mas sim para que todos reflitam sobre o que ainda precisa ser realizado, sobretudo com relação à garantia de direitos, pois temos vivido, infelizmente, em um contexto em que direitos conquistados estão sendo questionados.

Não podemos aceitar os retrocessos, pois muito já foi realizado por mulheres que nos antecederam e ainda há muito o que ser feito. Seguimos inspiradas por Tereza de Benguela, Adelina (a charuteira), Dandara, Maria Felipa, Aqualtune, Luiza Mahin, Chica da Silva e tantas outras que, embora tenham sofrido certo apagamento histórico, deixaram suas importantes marcas e inquestionáveis na nossa História!.

Referências bibliográficas:

COLETIVO NARRATIVAS NEGRAS. Narrativas negras: biografias ilustradas de mulheres pretas brasileiras. Curitiba: Voo, 2020.

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flávia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

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