Comunidade da zona sul se organiza contra mineração de terras raras

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Moradores da Zona Sul de Poços reuniram-se na última sexta-feira, 29, com o objetivo de discutir os impactos da exploração de terras raras no município – especialmente na região Sul da cidade, que será a mais diretamente afetada pelo projeto Colossus, da empresa Viridis Mineração.

O encontro, realizado entre 19h e 22h na Escola Municipal Maria Ovídia Junqueira, reuniu moradores, representantes de movimentos sociais e coletivos que vêm se articulando para informar a população e organizar ações de resistência.

Movimento cresce diante da falta de respostas

Desde fevereiro deste ano, o movimento de moradores da Zona Sul – batizado de Rara é a Vida – tem se reunido para estudar documentos, participar de audiências públicas e pressionar o poder público. O grupo entende que os malefícios da mineração de terras raras serão muito maiores do que os benefícios, especialmente diante da proximidade do empreendimento com residências, escolas e unidades de saúde.

Os moradores também vêm cobrando do poder público a realização de estudos independentes e a abertura de canais efetivos de escuta à população, antes que as licenças finais sejam emitidas.

“Consideramos extremamente necessário suspender a certidão emitida pelo município, para que haja tempo de produzir estudos independentes, ouvir a população e, aí sim, só depois, negociar contrapartidas”, afirmou uma das moradoras presentes.

Informações obtidas por conta própria

Segundo os organizadores, as informações levantadas pelo grupo – por meio de estudo dos documentos técnicos e participação em reuniões – vão muito além daquelas apresentadas pela empresa mineradora e pela própria Prefeitura.

A gente vai até as rodas de conversa que a empresa promove, mas não obtemos respostas para as nossas perguntas. Depois, nos chamam para conversar em particular e tentam amenizar nossas preocupações, como se as nossas queixas não tivessem fundamento. A gente não é bobo”, protestou um morador.

Os danos já começaram

Enquanto o projeto ainda aguarda licenças finais, os moradores da Zona Sul já relatam os primeiros impactos em sua saúde e rotina – muito antes da primeira cava ou do primeiro caminhão.

Ansiedade, insônia, perda de apetite e aumento da pressão arterial são alguns dos sintomas que têm sido compartilhados entre vizinhos. O medo do que está por vir – a poeira, o barulho, a falta de água, a desvalorização dos imóveis – já se instalou nas casas da região.

“Tem gente que não dorme mais pensando no barulho dos caminhões. Tem gente que sente o peito apertado só de olhar para as placas que já apareceram por aqui. O dano não começou com a obra. Ele já começou. E estamos vivendo isso sozinhos, sem apoio do poder público”, relata uma das moradoras que reside a 300 metros de onde será feita uma das cavas de mineração.

Além do sofrimento emocional, os moradores também têm aberto mão do tempo de descanso e de convívio familiar para se dedicar ao estudo de documentos, à participação em reuniões e à organização de ações de mobilização – tudo de forma voluntária.

“Se hoje, antes da mineração começar, a população já está sofrendo sozinha e contando apenas com o apoio da própria comunidade e parceiros, como acreditar que, quando os danos se agravarem, eles serão cuidados? Se não dão conta agora, não darão conta depois”, concluiu uma moradora.

Ataques ao movimento não intimidam

De acordo com os organizadores, o movimento de moradores vem crescendo e, por isso mesmo, tem sido alvo de ataques.

“Tem gente dizendo por aí que estamos espalhando informações falsas, que estamos sendo pagos para colocar o trabalho da empresa em xeque. Mas o que ninguém vê é o trabalho voluntário e exaustivo que estamos fazendo. Há pessoas que estão há dois anos estudando esses documentos, encontrando muitas falhas no processo”, disse uma das organizadoras do grupo.

Os organizadores também rebatem as tentativas de deslegitimar o movimento atribuindo-o a interesses partidários. “Isso não é questão de esquerda ou direita. É questão de água, de saúde, de casa. Todo mundo vai ser afetado”, afirmam.

Marcha e assembleia marcaram data histórica

O movimento ganhou força em maio, especialmente após o evento do dia 8, que contou com uma marcha saindo do Parque das Nações até o Instituto Federal (IF), onde foi realizada uma assembleia sobre o tema, organizada pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), com a participação massiva da população, além das deputadas estaduais Bella Gonçalves, Beatriz Cerqueira, da deputada federal Célia Xakriabá, representantes do Governo Federal, Conselhos e Instituições relacionadas ao tema.

“Querem que a gente acredite que não há mais nada o que fazer, que a guerra já está ganha. Mas a gente tem encontrado brechas e vamos seguir lutando para defender a nossa região e as nossas vidas. Ainda tem muito trabalho pela frente”, afirmou outro morador.

Próximos passos

O grupo pretende realizar ao menos uma reunião mensal para atualizar informações, acolher novos moradores que se identifiquem com a causa e organizar os próximos passos da mobilização.

“A nossa luta não é só da Zona Sul. Queremos mobilizar os demais bairros, porque muita gente ainda acredita que os impactos ficarão restritos à nossa região. Mas a cidade inteira será afetada”, afirmou um dos organizadores.

A próxima reunião de moradores da Zona Sul está prevista para o fim de junho.

Para mais informações, o movimento pode ser acompanhado pelo Instagram: @rara_e_a_vida.

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