97 anos de devoção a São Benedito: Dona Jocastha Brito da Silva Constâncio canta e dança no Terno de Congo que leva o nome do grande homenageado do dia. A fé é o combustível para percorrer o longo trecho da procissão que, tradicionalmente, encerra a centenária Festa de São Benedito em Poços de Caldas. Em casa, ela serve primeiro o café do Santo Negro, padroeiro dos cozinheiros. “É para a vida toda, mas não é promessa não, é porque eu gosto mesmo”, celebra.
Legado e ancestralidade definem o dia solene que marca o fim de mais uma edição do festejo mais popular e mais duradouro da cidade. A programação do feriado de 13 de maio – Dia da Festa de São Benedito – teve início já no período da manhã, com a realização da Missa Conga, no pátio da Capela de São Benedito, presidida pelo bispo Dom José Lanza Neto e participação dos seis Ternos de Congos e dois grupos de Caiapós.
À tarde, os fiéis se encontraram para seguir os andores de Santa Efigênia (ou Ifigênia), santa negra responsável pela difusão do Cristianismo na África, Nossa Senhora do Rosário, e o grande homenageado do dia, São Benedito. A versão mais aceita sobre a origem de São Benedito indica que o religioso era italiano, nascido na Sicília, região no extremo sul do país, em uma data incerta entre 1524 e 1526. Era filho de escravizados vindos da Etiópia, na África. Frade franciscano, atuou como cozinheiro, tornando-se o santo padroeiro das cozinhas.
Em Poços de Caldas, os Ternos de Congos e os Grupos de Caiapós são a marca registrada da festa. Os tambores reverenciam a fé e a devoção do povo ao Santo Negro, marca do sincretismo tão característico da cultura mineira. Por aqui, a tradição está ligada também aos Grupos de Caiapós, irmanados aos negros.
“São muitos agradecimentos, muitas pessoas fazendo promessas porque é um santo muito milagroso, muito poderoso”, destacou Ailton Santana, o Mestre Bucha, embaixador do também centenário Terno de Congo de São Benedito. Ele falou da alegria de ver crianças e jovens nos Ternos de Congo e grupos de Caiapós, reafirmando a potência da tradição e a garantia da manutenção dessas manifestações culturais basilares na formação da identidade da cidade.
A procissão foi aberta pelos grupos de Caiapós do São José e da Vila Cruz. “Estou continuando o legado que o meu pai deixou pra gente. Ele começou a dançar com sete anos de idade e eu quero dar continuidade nisso”, ressaltou Maria Lúcia Ramos, filha do saudoso Pedro Caiapó.
A jovem presidente da Associação dos Ternos de Congos e Caiapós de Poços de Caldas, Eduarda Carimbá, que é bisneta de Benedito Luiz da Costa, o querido Seu Ditinho, capitão do Terno Nossa Senhora do Rosário, aproveitou para também destacar a força da tradição familiar. “É a valorização da nossa cultura, da nossa tradição de família. A Festa de São Benedito é muito importante porque valoriza aqueles que vieram antes de nós”, pontuou.
Um a um, os Ternos de Congo de São Benedito, Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia, Nossa Senhora do Carmo, São Jerônimo e Santa Bárbara e Nossa Senhora da Saúde seguiram em procissão, cada um no seu ritmo próprio, mas com uma única missão: manter a tradição de reverenciar São Benedito, com muita fé e devoção.
Para o Padre Reginaldo Silva, pároco da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, responsável pela realização da festa, a procissão é um momento marcante pela manifestação popular e pelo encontro entre a fé, a cultura e a tradição. “O povo traz dentro de si esse sentimento religioso e um carinho muito grande para com São Benedito”, comemorou.

Bem cultural imaterial
A Festa de São Benedito de Poços de Caldas é registrada como bem cultural imaterial desde 2020. Seu primeiro registro impresso data de 1904, mas é evidente que a festa já acontecia em anos anteriores. O prefeito Paulo Ney esteve presente durante toda a programação de encerramento. “Desde criança participo da procissão do Dia de São Benedito e é emocionante ver como essa tradição continua unindo gerações pela fé e pela devoção. Uma caminhada de fé, gratidão e reflexão, ao lado de tantas famílias que mantêm viva essa tradição tão bonita da nossa cidade”, enalteceu.
São 13 dias de festejos, com programação religiosa, cultural, barracas de comidas típicas e doces, sempre com início em 1º de maio e encerramento no dia 13 de maio. “A procissão é o momento mais importante da festa, quando os Ternos de Congos e Caiapós preparam seus melhores trajes para saudar São Benedito, neste encontro de devoção, cultura popular e fé”, afirmou o secretário municipal de Cultura, Nando Gonçalves.
Dia da Festa de São Benedito
O feriado municipal de 13 de maio foi estabelecido pela Lei 2.053, de 14/03/1973, complementada pela Lei 4.823, de 18/12/1990, como Dia da Festa de São Benedito. No Brasil, o Dia de São Benedito é celebrado em 5 de outubro.
Sobre os motivos para a data, o dossiê de registro do bem imaterial, elaborado pela Divisão de Patrimônio Construído e Tombamento (DPCT), traz as seguintes informações: “Interessante mencionar a época da realização da festa de São Benedito na cidade, sendo feriado municipal no dia 13 de maio, pois o dia da comemoração oficial a São Benedito pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos no Brasil) é 5 de outubro sendo o dia de sua morte, 4 de abril. Entretanto em Poços de Caldas comemora-se o dia da libertação dos escravos, o aniversário do Coronel Agostinho Junqueira e o dia da inauguração da Igreja. Embora em outras localidades a comemoração ocorra em datas diversas esta foi uma das razões principais de ter permanecido o dia 13 de maio, para a celebração em honra a São Benedito”.
No Brasil, o Dia de São Benedito é celebrado em 5 de outubro. Nesta data, Poços de Caldas comemora o Dia Municipal dos Ternos de Congos, instituído pela Lei Nº 9.589, sancionada em 22 de maio de 2022, integrando o Calendário Oficial de Eventos Turísticos, Culturais e Desportivos. A data vai contar com programação específica realizada pela Associação dos Ternos de Congos e Caiapós.
Texto: Carolina Barbosa




